Monday, February 12, 2007

HISTÓRIA DO ABORTO

Percentagem calculada sobre votos validamente expressos (brancos e nulos excluídos)
COMPARATIVO: Avelãs de Ambom


Ano 2007 1998
Inscritos 106 114
Votantes 60 56.60% 73 64.04%
Em Branco 2 3.33% 0 0.00%

Nulos 0 0.00% 1 1.37%


2007 1998
Opções Votos % Opções Votos %
Sim 17 29.31 Sim 9 12.50
Não 41 70.69 Não 63 87.50
Percentagem calculada sobre votos validamente expressos (brancos e nulos excluídos)
dados em :http://www.referendo.mj.pt/Freguesia_compare.do
SAIBA MAIS SOBRE A HISTÓRIA DO ABORTO
Ninguém faz um aborto por prazer. É uma decisão dolorosa, mas quase sempre irreversível, porque muito mais dolorosas seriam as consequências de uma gravidez indesejada levada a termo.
Trabalhando em comunidades marginalizadas percebi que quando a mulher não pode ter filho, ela faz o aborto de qualquer forma, usando agulhas de tricô para perfurar o colo do útero, no banheiro de casa, ou com "curiosas" que ajudam das formas mais precárias.
Também as mulheres que têm uma situação mais privilegiada se encontram em situações nas quais não podem levar adiante uma gestação. A diferença é que essas, muitas vezes, têm condições de pagar por serviços que não colocam suas vidas em risco.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 20 milhões dos 46 milhões de abortos realizados mundialmente, todos os anos, são feitos de forma ilegal e em péssimas condições, resultando na morte de, aproximadamente, 80 mil mulheres, por ano, vítimas de infecções, hemorragias, danos uterinos e efeitos tóxicos de agentes usados para induzir o aborto.
Quando grupos apresentam-se "pró-vida", não estão considerando a enorme quantidade de mulheres que morre todos os anos. A criminalização do aborto é cruel, porquê não muda a situação em que essas mulheres vivem, apenas as culpabiliza ainda mais e as faz correr risco de vida, especialmente as mulheres pobres.
É importante aprender com a história, para entender o que se passa hoje. "Verdades" que parecem absolutas vêem sendo alteradas com o passar do tempo, mudando conforme mudam as conjunturas políticas e económicas. Tendo sempre como principal vítima, a mulher.

O Aborto na História.
A decisão de interromper a gravidez não é coisa de mulheres modernas, sobrecarregadas com as obrigações da maternidade, trabalho e estudos. Aparentemente, desde que o mundo é mundo, as mulheres se vêem em situações em que não desejam - ou não podem - levar uma gestação à frente. Já entre 2737 e 2696 a.C., o imperador chinês Shen Nung cita, em texto médico, a receita de um abortífero oral, provavelmente contendo mercúrio.(1)
Também não é novidade que interesses políticos, económicos e religiosos têm prevalecido, em relação ao direito da mulher decidir sobre o próprio corpo. Da mesma forma que se quer proibir, hoje, já se quis obrigar o aborto em diversos momentos da história.
Na antiga Grécia, o aborto era preconizado por Aristóteles como método eficaz para limitar os nascimentos e manter estáveis as populações das cidades gregas. Por sua vez, Platão opinava que o aborto deveria ser obrigatório, por motivos eugênicos, para as mulheres com mais de 40 anos e para preservar a pureza da raça dos guerreiros.
Sócrates aconselhava às parteiras, por sinal profissão de sua mãe, que facilitassem o aborto às mulheres que assim o desejassem (1)
No livro História das Mulheres - A Antiguidade, Georges Duby e Michelle Perrot afirmam que "se as mulheres desejavam limitar os partos, tinham de recorrer aos abortivos, cujas receitas são muito abundantes (...) O primeiro risco era, portanto, o da ferida de um útero ainda imaturo devido à juventude das esposas romanas; nesse caso os médicos recomendavam mesmo o aborto, inclusive por meios cirúrgicos (sondas)".(5)
É importante lembrar que, mesmo nas sociedades em que o aborto não era tolerado, na antiguidade, não se via aí como o direito do feto, mas como garantia de "propriedade do pai" sobre um potencial herdeiro.(2)
Mesmo no Cristianismo, o aborto não foi, sempre, uma questão tratada como nos dias de hoje, São Tomás de Aquino, com sua tese da animação tardia do feto, contribuiu para que a posição da Igreja com relação à questão fosse bem mais benevolente, naquela época. (1)
Foi apenas em 1869 que a Igreja Católica declarou que a alma era parte do feto desde a sua concepção, transformando o aborto em crime. (3)
No século XIX, a prática de proibição do aborto passou a expandir-se com toda força, por razões económicas, já que a sua prática nas classes populares podia representar uma diminuição na oferta de mão-de-obra, fundamental para garantir a continuidade da revolução industrial.
Essa política anti-aborto continuou forte na primeira metade do século XX, com excepção da União Soviética onde, com a Revolução de 1917, o aborto deixou de ser considerado um crime. Mas, na maioria dos países europeus, por causa das baixas sofridas na Primeira Guerra Mundial, o aborto continuava não sendo tolerado.
Na verdade, com a ascensão do nazifacismo, as leis antiabortivas tornaram-se severíssimas nos países em que ele se instalou, com o lema de se criarem "filhos para a pátria". O aborto passou a ser punido com a pena de morte, tornando-se crime contra a nação, a exemplo do que ocorreu em certo momento no Império Romano.
Após a Segunda Guerra Mundial, as leis continuaram bastante restritivas até a década de 60, com excepção dos países socialistas, dos países escandinavos e do Japão (país que apresenta lei favorável ao aborto desde 1948, ainda na época da ocupação americana) (1)
Na década de 60, em muitos países, as mulheres passaram a se organizar em grupos feministas que começaram a exercer uma pressão no sentido de permitir à mulher a decisão de continuar ou não uma gravidez.
A primeira conquista histórica aconteceu nos Estados Unidos, há exactos 34 anos (por isso a blogagem do Naral, hoje, em celebração à data). O julgamento do caso Roe x Wade (ROE v. WADE, 410 U.S. 113 [1973]) pela Suprema Corte Americana que determinou que leis contra o aborto violam um direito constitucional à privacidade, que a interrupção da gestação no primeiro trimestre apresenta poucos riscos à saúde materna e que a palavra 'pessoa' no texto constitucional não se refere ao 'não nascido'. Essas decisões liberaram a prática do aborto na América. (4)
Hoje em dia, 26% dos países não permite o aborto legal, justamente os que têm maior número de mulheres pobres e marginalizadas. No Brasil, existem leis que garantem o direito ao aborto em casos especiais, mas sabemos que o processo é tão longo que, muitas vezes, as mulheres desistem de esperar e acabam recorrendo ao aborto clandestino.
No gráfico abaixo, podemos ter uma ideia da situação legal do aborto no mundo, actualmente:

Fonte: Center for Reproductive Rights

Percebam que os países do Norte, a maioria mais industrializados, têm uma legislação muito menos restritiva e nem por isso existiu nenhum aumento no número de abortos nesses países.
O movimento feminista brasileiro tem se organizado para garantir o direito das mulheres ao aborto legal há décadas, especialmente através da Rede Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos, que tem tido as suas ações potencializadas pelas Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro.
Para isso, entre muitas outras coisas, precisamos ainda, sim, e muito, do movimento feminista, que não é anacrónico, como ouvimos algumas vezes, mas que está actuando junto às questões vitais para as mulheres.
É preciso acabar com a hipocrisia. Mulheres estão morrendo e a única forma de acabar com isso é através da descriminalização do aborto, que apenas possibilita Às mulheres o acesso aos cuidados de saúde que elas merecem e necessitam. Isso é lutar pela vida. http://www.sindromedeestocolmo.com/archives/corpo-saude

12 comments:

avelana said...

lamento mas não consigo apresentar melhor os resultados verificados em Avelãs de Ambom.
A actual configuração e definições do Google/Beta tb não me permite fazer links...

é o que temos , para já!

pitanga said...

Ah, esse Google!
Olha, li o teu comentário no Pitanga e vim aqui para dizer que além do avanço da despenalização às mulheres acho que deveriam pensar numa medida anticonceptiva que passa pelos homens.A vasectomia, que é menos invasiva que uma laqueadura de trompas e é reversível. Porquê sempre nós a nos preocuparmos com o controle de natalidade, não é?

beijos e cuidado com o Google que anda mau.

Ana Patudos said...

Venho juntar-me ás tuas sensatas palavras. Agora vamos aguardar para ver o que vai ser alterado. Pelo menos já não vão presas.
bjos
Ana Paula

Pandora said...

Pois é, quande se fazem campanhas eleitorais, deveria-se dar a conhecer ao povo este tipo de artigos elucidatórios, e não panfletos como os que recebi no correio em que Nª Sª de Fátima falava mais alto.
é esta a mentalidade de muitos portugueses.
Beijos.

O Micróbio II said...

"Isso é lutar pela vida"... não deixa de ser um paradoxo quase a roçar o absurdo! É que em nenhuma altura destetexto se menciona a outra vida... a do feto! Porque esse não tem direito a opção e muito menos a uma despenalização...

avelana said...

pitanga

a contracepção e a educação sexual terá de ser para todos - diminuiria largamente os casos de abuso e violencia sexual, de pedofilia, de abuso de menores - estou certa disso!

Um beijo para ti

avelana said...

ana
muita coisa tem de ser alterada porque não faz mais sentido - a mentalidade que se tentou impingir é fruto de teorias pós -guerra e interesses hitlerianos como o texto muito bem refere.
Há muito que fazer e é tempo de arregaçar as mangas e ir prá luta.

Beijos para ti

avelana said...

pandora

por isso achei importante a divulgação deste texto.
Em Avelãs houve 17 SIM num universo de 60 pessoas q votaram; representa o dobro do SIM de 1998.
Temos em conta o envelhecimento da população na sua maioria mulheres e viuvas e uma muito pequena % de eleitores jovens.
Esta informação é importante ao analisarem-se localmente os resultados , o que lhes estás por detrás e o que é necessário alterar. AGORA.

Um beijo

avelana said...

Micróbio

penso em todas aquelas mães que levaram a gravidez até ao final e depois deitaram os filhos para o meio das silvas, ou para o caixote do lixo embrulhados num saco de plástico, em todas aquelas que deixaram morrer seus filhos de fome , de pancada, que deixaram seus maridos e companheiros violar esses pequenos seres, torturar e matar...
Quando a minha filha nasceu estava na Maternidade um bebé que já tinha cinco meses e que a mãe abandonara a seguir ao parto, aguardando os trâmites legais para ser transferido para uma qualquer Instituição...
Quem defende estas crianças ?

avelana said...

pandora

não consigo abrior o teu blog

Maria said...

Um documento interessante sobre a questão do aborto.
Há outros documentos, também interessantes, sobre esta questão.
Mas agora que já passou o "pesadelo", vamos esperar que o nosso governo legisle sobre a matéria, e o mais rapidamente possível.
Um abraço

o alquimista said...

Um sorriso às vezes é solto na lágrima vinda do céu do teu mais profundo sentir...